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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Dislexia em Adultos





Nos últimos anos, muito tem se falado sobre os Transtornos da Aprendizagem e a Dislexia do Desenvolvimento. Porém, a maior parte das informações divulgadas se refere às crianças que estão no período escolar. Mas, afinal, adultos também podem ter Dislexia? Como ela se manifesta em adultos e como lidar com as dificuldades de leitura e de escrita nessa fase? Uma vez que a Dislexia é um transtorno com bases genéticas que afeta o desenvolvimento neurológico, mesmo que o diagnóstico seja geralmente realizado nos primeiros anos escolares, esse quadro permanece presente em todas as fases da vida.
A Dislexia, também conhecida como transtorno específico da leitura, é o transtorno de aprendizagem mais comum. Os transtornos de aprendizagem são de três tipos e se caracterizam por dificuldades persistentes na leitura (Dislexia), na escrita (Disgrafia) e/ou na aritmética (Discalculia), apesar de o sujeito afetado possuir nível de inteligência adequado e não apresentar problemas emocionais, ambientais, sensoriais e neurológicos que sejam capazes de explicar as dificuldades. Esses transtornos frequentemente estão associados, ou seja, existem disléxicos que também possuem Disgrafia ou Discalculia. Porém, a associação mais comum é entre a Dislexia e o Transtorno de Déficit de Atenção e/ou Hiperatividade (TDAH). Dados epidemiológicos internacionais estimam que de 5 a 10% das crianças em idade escolar tenham Dislexia e que esse transtorno está mais presente em meninos do que em meninas.
Em nosso país, devido à recente disseminação da importância do diagnóstico e tratamento da Dislexia, muitos adultos com dificuldades de leitura e escrita buscam avaliação especializada apenas depois que seus filhos são diagnosticados com Dislexia. Além disso, outros adultos que cursaram a escola com extremas dificuldades de aprendizagem não identificadas podem buscar avaliação diagnóstica após ingressarem em cursos superiores ou outros que exijam constante uso da leitura e da escrita. Diante disso, considerando que a Dislexia possui bases genéticas, quando alguém é disléxico, existe probabilidade maior de que outras pessoas em sua família também sejam. O risco de uma criança com um dos pais afetados desenvolver Dislexia é de 40 a 60%. Já o risco de um irmão afetado ter outro irmão com Dislexia aumenta entre 3 e 10 vezes em relação ao resto da população.
Apesar de a avaliação diagnóstica da Dislexia ser realizada por especialistas, é possível, no cotidiano, identificar alguns sinais que podem ser decorrentes deste quadro e, desta maneira, solicitar avaliações multidisciplinares para investigação aprofundada. Os disléxicos podem apresentar atraso para começar a falar; frequentemente esquecem os nomes e usam palavras substitutas como “coisa” ou “negócio”; se confundem nos conceitos de direita/esquerda; confundem letras por similaridade visual (b-d) ou por similaridade auditiva (f-v), pois possuem dificuldades para diferenciar sons e símbolos semelhantes. Também apresentam dificuldades para manipular sílabas e fonemas.
As principais características da Dislexia são relacionadas ao baixo desempenho em leitura, tanto para compreender o material lido quanto em relação à velocidade em que o sujeito lê. A leitura de disléxicos adultos pode ser lenta e com erros na identificação de letras, o que faz com que o leitor não consiga compreender adequadamente o sentido do texto ou, ainda, que ele tenha de reler diversas vezes o mesmo trecho para que possa compreendê-lo. Frequentemente as dificuldades se refletem na escrita, com erros de trocas de letras e esquecimento ou confusão em relação às regras ortográficas e gramaticais. Além disso, dificuldades severas podem acompanhar o aprendizado de línguas estrangeiras. No que se refere a outras habilidades, os disléxicos podem confundir instruções verbais breves e números de telefone, além de apresentar dificuldade com planejamento, organização e manejo do tempo, de matérias e tarefas. Contudo, são competentes na linguagem oral, são sociáveis e frequentemente possuem boas habilidades visoespaciais.
Considerando que sujeitos adultos podem apresentar níveis diferentes de dificuldades de leitura e de escolaridade e graus variados de exigência de leitura no trabalho, podem existir grandes diferenças de desempenho entre os próprios disléxicos. Além disso, caso o indivíduo tenha sido diagnosticado na infância ou adolescência e tenha recebido intervenção especializada, provavelmente ele apresentará menor nível de dificuldade do que os não diagnosticados previamente. Durante o ensino superior, disléxicos experimentam com frequência dificuldades importantes em relação às demandas acadêmicas, tais como tomar notas durante aulas e palestras, escrever resenhas, sintetizar materiais dos cursos para exames ou compreender grande quantidade de material escrito complexo. Além disso, podem ser mais lentos na elaboração de textos e produzir menor volume de material do que adultos sem problemas de leitura. Pesquisas com análises da escrita de disléxicos adultos apontam que o esforço e o tempo maiores exigidos são decorrentes de déficits no domínio das regras ortográficas e da persistência no uso de estratégias fonológicas de escrita.
Recentemente, um grupo de pesquisadores liderados por Margaret Snowling, nos Estados Unidos, realizou um estudo em que adultos disléxicos responderam a um questionário de sintomas de leitura e habilidades relacionadas, a um questionário de sintomas de TDAH e realizaram testes de leitura de palavras, de pseudopalavras e de escrita. O resultado mostrou que houve forte correlação entre as respostas do questionário dos sintomas da Dislexia e o desempenho na tarefa de leitura e nomeação verbal, o que significa que quanto maior foi a presença de sintomas, menor foi o desempenho na leitura. Os adultos com formação superior com dificuldades leves de leitura perceberam-se como pessoas com graves problemas de desempenho no trabalho mais do que seus pares. Eles, portanto, têm maior probabilidade de responderem positivamente ao questionário do que uma pessoa com o mesmo grau de dificuldades de leitura que exerça um trabalho manual.
A Dislexia não é um quadro que configura uma deficiência, uma vez que é um transtorno específico do desenvolvimento da leitura. Mesmo assim, é uma condição na qual é necessária a adoção de práticas educativas especiais, pois os disléxicos processam as informações de maneiras e em tempos diferentes para aprender e elaborar tarefas acadêmicas. A LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) garante que os sujeitos com necessidades educacionais especiais sejam atendidos na criação de condições satisfatórias de aprendizagem em todas as fases de ensino, incluindo o Ensino Superior. Disléxicos que queiram prestar vestibulares, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), concursos públicos e participar de outros processos seletivos têm direito a solicitar os recursos que julgarem ser os mais adequados para que obtenham um melhor desempenho. Dentre os recursos, é possível solicitar a presença de um ledor, o uso de computador, a prova impressa em fonte maior e com maior espaçamento entre linhas, bem como maior tempo para a execução da prova.
Algumas estratégias simples podem ser adotadas por disléxicos adultos para melhorar seu desempenho no dia a dia do trabalho e dos estudos, como usar gravador durante as aulas para não precisar anotar as falas do professor; aprender a grifar as principais ideias dos textos, anotar as expressões-chave de parágrafos e posteriormente elaborar resumos; fazer um dicionário com as palavras mais utilizadas no cotidiano que são de difícil memorização; e criar estratégias de memorização por associação de ideias para aumentar a memória breve. Essas informações sucintas podem auxiliar adultos com Dislexia a experimentar maior qualidade de vida e autoconhecimento sobre suas necessidades e potencialidades a serem desenvolvidas. Espera-se que, assim como tem ocorrido com as crianças e adolescentes, os adultos também tenham mais acesso ao diagnóstico e tratamento da Dislexia, bem como maiores oportunidades de desenvolvimento nas áreas acadêmica, profissional e pessoal.

Cindy Morão. Psicóloga, fez aprimoramento em reabilitação cognitiva e especialização em neuropsicologia. Atualmente é psicóloga colaboradora do Laboratório de Neurociência da Universidade Mackenzie, psicóloga do Ambulatório de Diagnóstico da APAE-SP e psicóloga na Clínica Multidisciplinar Psicossoma.

Darlene Godoy de Oliveira. Psicóloga, mestre e doutoranda em Distúrbios do Desenvolvimento. Professora do curso de especialização em Psicopedagogia da Universidade Mackenzie.

Cindy Morão
Psicóloga CRP : 06/108188

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